De acordo com a definição mais popular, uma ecovila é um assentamento completo, de proporções humanamente manejáveis, que integre as atividades humanas no ambiente natural sem degradação, e que sustente o desenvolvimento humano saudável de forma contínua e permanente. Podemos utilizar esta definição como uma meta, ou um guia para que as comunidades continuem se aperfeiçoando e adaptando. Vamos estudá-la por partes:
Os conhecidos loteamentos modernos, não vão muito além de prover habitação e uma vida social limitada. Na maioria dos casos, os habitantes destes “condomínios” passam grande parte do dia viajando distâncias enormes para chegar ao trabalho, comprar o alimento e ir a escola.
Não se pretende exigir que todas as comunidades sejam totalmente independentes, mas que, dentro de suas bio-regiões, sejam organizadas juntas para alcançar este objetivo. Por exemplo: uma ecovila deveria oferecer oportunidades de emprego para a maioria de seus residentes e para alguns outros da região, de uma forma proporcional ao número de residentes necessitam sair da ecovila para trabalhar.
É bem verdade que muitos serviços especializados, ou istitucionalizados, não são compatíveis com sua existência dentro de uma só ecovila (hospitais, aeroportos etc). Neste caso diversas ecovilas de uma mesma região se organizam para providenciarem estes serviços.
Certamente que tal conceito é relativo às características culturais e psicológicas desta população, mas já nos é possível fazer algumas estimativas realistas, pela observação do comportamento de muitos outros grupos.
Na região basca da Espanha, as “Cooperativas Mondragon” são um grupo de comunidades intencionais muito bem sucedido. A produção de alimentos e a manufatura de utensílios (inclusive refrigeradores e outros produtos elétricos) são distribuídas e organizadas em várias ecovilas. Aqui, a lição aprendida é de que grupos maiores que quinhentas pessoas tendem a tornar-se burocráticos e perder eficiência.
Bill Mollison, o grande visionário Australiano, em seu clássico “Permaculture: A Designer´s Manual”, confirma este dado, e adiciona que uma população maior que 2000 pessoas começa a sofrer problemas de criminalidade.
A experiência Dinamarquesa acrescenta a isto o conceito de sub-grupos, nos projetos conhecidos como “cohousing”, que se proliferaram por aquele país e por grande parte do hemisfério norte. Aqui, os residentes concluíram que o número máximo de casas em um subgrupo deve ser em torno de trinta, o que reflete um número de aproximadamente 75 pessoas.
Outra realidade importante é a existência cíclica de todos os recursos. Opostamente ao pensamento linear (produção = consumo = poluição) que domina a nossa cultura industrial moderna, devemos aprender a utilizar todos os recursos materiais de uma forma consciente e responsável.
A geração de energia renovável é uma exigência básica. A reciclagem de todos os detritos também. Detritos orgânicos devem ser reintegrados ao solo. A água deve ser limpa e reutilizada. O consumo de substâncias inorgânicas deve ser cuidadosamente planejado, e a reciclagem feita prioridade. Neste aspecto as tecnologias já existem, e são muito mais simples do que as mirabolantes invenções utilizadas para conduzir estes detritos para fora da nossa vista, poluindo o ambiente.
Neste caso, o projeto de saúde em uma ecovila deve enfatizar o caráter preventivo do trabalho. A saúde preventiva começa no solo. Pessoas satisfeitas, seguras e amadas, com uma dieta orgânica, e atividade física adequada, raramente adoecem.
Uma cidade não é uma ecovila, mas com um planejamento adequado, vontade e trabalho, pode se tornar uma federação de ecovilas interdependentes. Da mesma forma, comunidades rurais necessitam uma auditoria cuidadosa nos seus sistemas de suporte, pois uma infra-estrutura baseada na utilização de combustíveis fósseis, sem um sistema de reciclagem de detritos, e dependente das importações de recursos é um sistema destinado ao colapso. E com ele, o colapso de todos que dele dependem.
A crise não é tanto material quanto uma crise de caráter. A falta de determinação para realizar as mudanças, utilizando as soluções já disponíveis, é a maior carência. Ecovilas são feitas por visionários. Pioneiros que se recusam a participar do ciclo de exploração, e dedicam-se a criar um novo futuro. Um futuro possível.
(Material de apoio ao participante do curso Ecovilas - Design e Implementação, do Ecocentro IPEC)